Já não escravos mas Irmãos

Mais de 35 milhões de pessoas estão a ser actualmente escravizadas, perto de 21 milhões de pessoas são vítimas de exploração laboral, mais de metade destas são do sexo feminino e mais de 4 milhões são vítimas de exploração sexual. Estatísticas assustadoras que espelham uma realidade, com a qual o Papa Francisco nos confronta, na mensagem escolhida para assinalar o 48º Dia Mundial da Paz.

“Já não escravos mas irmãos” é o tema da mensagem do Santo Padre para celebrar o Dia Mundial da Paz, no próximo dia 1 de Janeiro de 2015.

A mensagem centra-se na denúncia da escravidão contemporânea e da globalização da indiferença do ser humano. O Santo Padre lança-nos um apelo para que não sejamos cúmplices da escravidão, para que não desviemos o olhar ou fechemos os olhos ao sofrimento dos outros. E que ao sermos defrontados ou testemunhas de situações de escravidão e injustiça, não baixemos os braços e optemos pela ignorância.

Num mundo onde a escravidão foi abolida formalmente no século XIX, estima-se que mais de 35 milhões são vítimas desta. Esta é uma realidade para milhares de pessoas, em todos os cantos do planeta. Numa escravidão que assume muitas formas, falamos em exploração de seres humanos, crianças, mulheres e homens que são submetidos a condições laborais inconcebíveis, falamos de escravatura sexual, do tráfico de menores e de migrantes, da servidão por dívida e da comercialização de órgãos. Esta “escravatura moderna” gera mais de 25 mil milhões de euros por ano.

O Papa Francisco chama-nos ainda a atenção para outro fenómeno, o da globalização da indiferença, do tratamento do ser humano como um objecto. Este olhar material acarreta sofrimento para aquele ou aquela a quem deveríamos acolher como irmão ou irmã, mas que é encarado como algo, descartável e substituível. “Quando o pecado corrompe o coração do homem e o afasta do seu Criador e dos seus semelhantes, estes deixam de ser sentidos como seres de igual dignidade, como irmãos e irmãs em humanidade, passando a ser vistos como objectos”.

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Situações miseráveis de pobreza, deficiente acesso à educação e escassas oportunidades de empreso são alguns factores que levam a que as pessoas caiam em falsas promessas e nas mãos erradas. E estas situações são realidades que podemos encontrar diariamente na nossa sociedade, na nossa cidade e em nossa casa. Portugal tem cerca de 1400 escravos.

A entidade patronal que submete os funcionários a condições laborais perturbáveis, mulheres que trabalham o dobro da carga laboral e recebem salários de miséria, seres humanos submetidos a abusos mentais e físicos, migrantes privados do seu lar e da sua liberdade, crianças vendidas, outras forçadas a casar, venda de órgãos, entre tantas outras realidades da escravidão moderna.

E o que pode ser feito para travar esta situação? Uma acção judicial e governamental activa e mais rigorosa, aplicação de leis que defendam os direitos fundamentais, uma justiça que permaneça do lado dos fracos, estabelecimento de iniciativas que combatam as redes de crime e o tráfico ilegal.

Quanto a nós como consumidores, temos a responsabilidade de não adquirir produtos que favorecem a escravatura. O trabalho proveniente desta situação contribui para a produção de pelos menos de 122 bens em 58 países.

Quanto a nós, como ser humanos e cristãos, o Santo Padre apela à fraternidade, ao amor de irmão. E que aos confrontados com situações de escravidão, não as ignoremos, mas que denunciemos o sofrimento dos nossos irmãos, cuja liberdade lhe é negada. Que a globalização da diferença que carateriza a nossa sociedade actual converta-se numa globalização da solidariedade e fraternidade.

Recordemos o grito de paz que o Santo Padre anunciou na mensagem do 47º dia Mundial da Paz, “um grito que diz com força: queremos um mundo de paz, queremos ser homens e mulheres de paz, queremos que nesta nossa sociedade, dilacerada por divisões e conflitos, possa irromper a paz! Nuna mais a guerra! Nunca mais a guerra! A paz é um dom demasiado precioso, que de ser promovido e tutelado.”

Às estatísticas apresentadas no início deste editorial podemos acrescentar outras quantas igualmente negativas, que reflectem estados de conflito vividos diariamente por milhares de pessoas. A estas estatísticas acrescento o número de mulheres mortas em Portugal este ano, vítimas de violência doméstica: 40 mulheres. Este não é um retrato de uma sociedade moderna e evoluída, de uma sociedade consciente e humanitária que procura a Paz. Regressámos aos tempos pré-históricos, onde a sobrevivência a qualquer custo sobrepõe-se a quaisquer outros valores.

A paz não surge do nada, tem de ser semeada e cultivada e o seio familiar é o melhor ponto de partida para o fazer. Por isso hoje, amanhã, neste Natal e em todos os outros momentos, procuremos praticar a Paz, começando por um sorriso, uma palavra amiga, manifestando o interesse pelo outro, procurando vê-lo como irmão, pois mais que uma sociedade global, como cristãos podemos e devemos formar uma família global. Não fechemos os olhos às desgraças que assistimos, pois é nesta altura que temos que arregaçar as mangas e lutar. Uma luta de amor, fraternidade e luz.

Rita Francisco
Grãos de Areia, Dezembro de 2014

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