Combater a crise com atitude Cristã

Ouvimos dizer, com frequência, que a crise económica e financeira que enfrentamos tem raízes noutra mais grave, uma crise espiritual, ética, humana, de valores. É por aí que temos de começar, não só para resolvermos os problemas actuais, como para evitarmos os futuros. O Evangelho e a doutrina da Igreja devem ser a nossa grande referência.

Em Setembro de 2013, num encontro com trabalhadores da cidade italiana de Cagliari, o Papa Francisco denunciava que a crise «é a consequência de uma escolha mundial, de um sistema económico (…) que tem no centro um ídolo, que se chama dinheiro». No entanto, Deus quis que, no cerne do mundo, estivesse o ser humano. Ao subsituí-lo pelo dinheiro, as sociedades estão a deixar na periferia os idosos, cada vez mais negligenciados, os jovens e os pais de família, a quem é negado trabalho, os mais pobres e mais frágeis, aos quais é roubada a dignidade. E tudo isto é o preço para que cada vez menos pessoas tenham uma porção cada vez maior da riqueza do mundo, que deveria chegar para alimentar toda a humanidade.

«Por conseguinte, considerou o Papa, é necessário tirar a centralidade à lei do lucro e do rendimento, e voltar a dar a prioridade à pessoa e ao bem comum.»

Não está nas nossas mãos resolver a crise económica. Porém, está ao nosso alcance ajudar a atenuar os seus efeitos com a solidariedade, procurar e partilhar os sinais de esperança e cultivar os valores e atitudes que podem evitar novas e mais graves crises.

O milagre da multiplicação dos pães, narrado de forma muito semelhante pelos quatro Evangelistas, fala-nos diretamente também a nós, homens e mulheres do século XXI, animando-nos a não nos deixarmos paralisar pelos problemas mas, pelo contrário, a envolvermo-nos nas soluções. Aproxima-se a noite, o local é desértico e não há com que alimentar a multidão de mais de 5.000 pessoas que tinham procurado Jesus e que Ele tinha estado a atender, curando os doentes, sempre cheio de misericórdia.

Os discípulos identificaram o problema mas não fizeram mais do que levá-lo a Jesus, pedindo-Lhe que mandasse embora aquela gente, a fim de procurar comida nas povoações vizinhas. Tal como eles, nós conseguimos ver o que está mal, mas nem sempre sentimos que o problema nos diga respeito. Quando muito, apelamos a instâncias superiores: ao Estado, às instituições de solidariedade, à Igreja. Mesmo que o problema não se resolva, pelo menos que esteja longe da nossa vista.

A esta atitude, Jesus contrapõe caridade e inteligência. E não deixa fugir os discípulos: «Dai-lhes vós mesmos de comer». Os discípulos, como nós tantas vezes, teimam em descartar-se: «Temos apenas cinco pães e dois peixes». Ou seja, mal chega para nós, quanto mais para esta multidão! Então, Jesus reza e realiza o milagre, criando abundância a partir da escassez.

Conta ainda o Evangelista: «Todos comeram e ficaram saciados; e, com o que sobejou, encheram doze cestos.» Na linguagem bíblica, o número doze é utilizado para simbolizar a universalidade: todos estamos representados nas doze tribos de Israel e nos primeiros doze discípulos chamados por Jesus, por exemplo. Actualizando este episódio, está a ser-nos dito que não se justifica que haja fome no mundo. Se todos nos empenharmos, com generosidade e criatividade, aquilo que é possuído por uns poucos pode transformar-se em muito para muitos, o que implica também que se evite o desperdício.

Já o Papa Bento XVI, em visita à referida cidade de Cagliari, em 2008, tinha apontado a necessidade de «evangelizar o mundo do trabalho, da economia, da política, que precisa de uma nova geração de leigos cristãos comprometidos, capazes de procurar com competência e rigor moral soluções de desenvolvimento sustentável». Sendo certo que a crise tem responsáveis mais ou menos conhecidos, nem por isso devemos desresponsabilizar-nos da busca de alternativas e da aplicação concreta do Evangelho à nossa realidade.

Lúcio Gomes

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